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Um filho questiona o pai sobre a natureza do pensamento e da crença: por que pensamos tão facilmente no invisível, no extraordinário, no que não podemos provar? Em vez de recorrer a respostas prontas, o pai decide propor uma hipótese ousada: nosso cérebro tem origem uterina, e nele permanecem rastros do ambiente em que ele se formou - ritmos, pressão, trocas, sons filtrados, luz difusa. No útero, segundo essa visão, o cérebro aprende a primeira gramática do mundo: a do Eu (sensações internas), a do Outro (vínculos afetivos) e a do Extracorpóreo (o que está além da membrana corporal). Essa escola silenciosa molda nossa capacidade de perceber o sentido no caos, de padrões de confiança, de esperar o mistério. Assim, a crença não nasce como um erro ou ilusão, mas como uma estrutura fundamental da mente: fomos treinados, ainda antes de nascer, a acreditar no invisível que nos sustentava. Por isso seguimos, após o parto, procurando penumbras protetoras, ciclos regulares, sinais de pertencimento internos e extraordinários. É dessa busca que nasce tanto as religiões quanto a ciência, as artes, as narrativas, os mitos e até as obsessões coletivas. A hipótese é que todos partilhamos, em alguma medida, o mesmo "alfabeto uterino" que atravessa culturas, épocas e tradições. Essa herança biológica torna possível tanto a criação quanto a superstição, tanto o cálculo astronômico quanto o mito do cometa. O pai divide com o filho uma reflexão íntima que une ciência, filosofia e imaginação: pensar é prolongar a aprendizagem uterina no mundo real. Acredito que não conseguimos nos desvencilhar do extracorpóreo que nos estruturou uterinamente. No fim, uma conversa se transforma num convite à curiosidade infinita - um diálogo entre gerações, dois habitantes do mesmo ventre ancestral, trilhando juntos a pergunta que nunca se esgota: por que pensamos e por que não conseguimos deixar de crer?
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